A vida de Dona Maria Querobina da Silva Neta mostra que, entre o som do coco quebrado e a memória da floresta, pulsa a história das quebradeiras de coco — um movimento da mulheres que resiste há gerações.

Karina Santiago Imperatriz (MA)

O som seco do coco se partindo nas mãos de uma menina de oito anos anuncia o início de uma vida inteira dedicada ao babaçu. Hoje, com oitenta anos, Maria Querobina da Silva Neta, conhecida como Dona Querobina, tem a história marcada pela força da tradição e pela luta contra cercas e queimadas. É também a história de mais de 300 mil mulheres que transformaram o babaçu em sustento, identidade e resistência.

Na beira do quintal, ainda criança, Querobina aprendeu com a mãe a transformar o fruto em sabão, bolo e óleo. “Eu não virei quebradeira de coco. Eu sempre quebrei coco”, recorda. O gesto repetido de abrir o fruto, passado de geração em geração, é mais que trabalho: é rito de pertencimento. O babaçu, para ela, é floresta mulher, fruto que cai após nove meses, como uma gestação, e que lembra o seio materno. Nascida em uma família numerosa, com nove irmãos, Querobina cresceu em meio ao cheiro do óleo e ao som das palmeiras. Sua mãe, “muito caseira”, inventava de tudo com o coco e foi nesse ambiente que o saber tradicional se consolidou como herança. O aprendizado não vinha de livros, mas da prática, transmitida entre mães, avós e filhas.

O cotidiano das quebradeiras de coco é marcado pela coletividade. Mais de 300 mil mulheres vivem e atuam nos estados do Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins. Elas vivem do babaçu, transformando-o em farinha, carvão, óleo e artesanato. É um modo de vida que une economia e cultura, onde o trabalho é também resistência.

Com o avanço do agronegócio e das cercas, o acesso ao babaçu passou a ser criminalizado em alguns contextos. As quebradeiras enfrentam violência e restrições, vendo seus babaçuais ameaçados por derrubadas e queimadas. Querobina lembra:


“Se aparecer um dia um governo que diga: ‘ninguém toca mais fogo numa área que tiver babaçu’, eu acho que eles já estão fazendo muita coisa.”

Dona Maria Querobina
Dona Marina Querubina. Foto: Karina Santiago
Dona Marina Querobina. Foto: Karina Santiago

Origem do Movimento

Foi nesse contexto que, nos anos 1980, surgiram as primeiras mobilizações. Clubes de mães, agroquintais e associações locais deram origem ao Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB). Oficializado em 1991, o MIQCB se espalhou por quatro estados — Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins — e se tornou referência na defesa de direitos sociais, ambientais e culturais.

Querobina se destacou como voz firme na defesa do babaçu livre. Sua trajetória política se entrelaça à conquista da Lei do Babaçu Livre, inicialmente publicada no ano de 1997, no município de Lago do Junco, no Maranhão, que garante às mulheres o direito de acessar os babaçuais, mesmo em propriedades privadas.

Conforme registra o site do MIQCB, atualmente existem três leis estaduais, no Piauí, Tocantins e Maranhão, neste último a lei se aplica apenas em terras públicas. Também existem 18 leis municipais, sendo quatro cidades no Tocantins, duas no Pará e 12 no Maranhão.

As leis têm o potencial de proteger cerca de 11 milhões de hectares de babaçual, segundo a organização. Foto: Arquivo Mapa da Mina

As leis têm o potencial de proteger cerca de 11 milhões de hectares de babaçual, segundo a organização. Embora a lei ainda enfrente falhas de fiscalização, ela simboliza a vitória contra a criminalização do extrativismo. Ao lado de lideranças como Maria José Silva, Querobina ajudou a dar padrão de preço aos produtos e fortalecer a cadeia produtiva.

Em junho de 2026, o ofício das quebradeiras de coco babaçu foi reconhecido como manifestação da cultura nacional pela Lei 15.431. O reconhecimento oficial garante maior visibilidade e proteção, reforçando que o trabalho das quebradeiras é parte essencial da identidade brasileira.

Em 1987, Querubina assumiu a diretoria do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais. Foto Karina Santiago
Dona Querobina é hoje uma referência para as mulheres quebradeiras de coco. Foto Karina Santiago

“A luta é grande, mermã”

Pesquisas recentes ajudam a compreender a luta das quebradeiras de coco babaçu em uma perspectiva mais ampla. Um artigo de Francisca Regilma de Santana Santos e Vanda Pantoja mostra que, no Maranhão, o babaçu alcança aproximadamente 196 mil quilômetros, especialmente na região da Mata dos Cocais, e sua presença não é apenas econômica, mas identitária. As quebradeiras se autodefinem como “donas de suas vidas”, sustentando famílias e comunidades a partir do trabalho coletivo. Nos depoimentos coletados pelas pesquisadoras em Imperatriz, a expressão “a luta é grande, mermã” aparece como lema cotidiano.

Mais que uma saudação, a frase traduz tanto a dureza quanto a leveza da resistência, indicando que o enfrentamento contra cercas, queimadas e exclusão é também feito com solidariedade e humor. Essa resistência cotidiana é entendida como prática de feminismos plurais, que se afastam do feminismo branco hegemônico e se enraízam nas experiências de mulheres negras, indígenas e camponesas.

Querobina, ao assumir em 1987 a diretoria do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais, tornou-se a primeira mulher a ocupar esse espaço, abrindo caminho para que outras quebradeiras pautassem direitos e voz política. Esse protagonismo foi decisivo para a criação, no início da década de 90, da Articulação das Mulheres Quebradeiras de Coco e do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), que hoje articula mulheres em quatro estados.

Assim como o fruto que cai após nove meses, a luta das quebradeiras é gestação contínua. A verdadeira força não está nos decretos, e sim no gesto repetido de quebrar, ensinar e resistir. A palmeira continua de pé, indiferente às mudanças políticas, lembrando que cada fruto que cai também é promessa de continuidade.

Quebradeira de coco no Maranhão. Foto: Arquivo Mapa da Mina
Quebradeira de coco no Maranhão. Foto: Arquivo Mapa da Mina

A reportagem da estudante Karina Santiago foi produzida no contexto da II Oficina de Formação em Jornalismo, realizada em março de 2026, em São Luís (MA). A formação contou com mentoria da jornalista Taís Seibt, da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), e apoio institucional da Justiça nos Trilhos (JnT) e do Instituto para Democracia, Mídia e Intercâmbio Cultural (IDEM).