Durante anos, a violência contra mulheres indígenas no Rio Negro permaneceu invisível. Os relatos circulavam entre comunidades e lideranças, mas raramente chegavam aos registros oficiais. Quando os primeiros dados começaram a revelar a dimensão do problema, mulheres indígenas decidiram que denunciar não seria suficiente: era preciso construir uma rede capaz de prevenir a violência, acolher vítimas e fortalecer quem vive nos territórios.
Foi dessa mobilização que nasceu o Mukaturu, palavra em nheengatu que significa cuidado e autocuidado. Mais do que um projeto, a iniciativa se tornou uma rede de proteção formada por mulheres indígenas que levam informação, apoio e orientação às suas comunidades em toda a região do Rio Negro, no Amazonas.
A iniciativa é coordenada pelo Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN), da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), e reúne lideranças de diferentes povos e territórios em torno de um princípio simples: quem cuida de si fortalece também sua família, sua comunidade e seu território.
A origem da rede está ligada a um diagnóstico preocupante. Em 2020, uma pesquisa sobre violência contra mulheres indígenas em São Gabriel da Cachoeira revelou que, entre 2010 e 2019, foram registrados 4.681 casos de violência contra mulheres no município — uma média superior a um caso por dia. O estudo também apontou que muitos episódios sequer chegavam às autoridades, devido à distância das comunidades, às barreiras linguísticas e culturais e ao desconhecimento dos direitos das mulheres.
Diante desse cenário, as lideranças do DMIRN decidiram adaptar ao contexto indígena a experiência das Promotoras Legais Populares, criando uma metodologia própria baseada tanto no conhecimento jurídico quanto nos saberes tradicionais.

Promotoras Legais Indígenas
A primeira formação de Promotoras Legais Indígenas aconteceu em 2021 e reuniu mulheres dos municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos. Durante cinco dias, elas discutiram temas como direitos das mulheres, Lei Maria da Penha, políticas públicas, atendimento às vítimas de violência e fortalecimento das lideranças femininas.
Mas o objetivo ia além de apresentar leis. A proposta era formar multiplicadoras capazes de levar esse conhecimento para suas comunidades, traduzindo direitos para a realidade dos diferentes povos indígenas do Rio Negro.
Desde então, a rede continuou crescendo. Novos encontros, materiais educativos e ações voltadas ao autocuidado e à prevenção das violências ampliaram o alcance da iniciativa. Em 2024, cerca de 80 lideranças participaram do segundo módulo da formação, aprofundando os debates iniciados três anos antes e fortalecendo os vínculos entre mulheres das cinco coordenadorias regionais da FOIRN.
Para muitas participantes, a formação representou uma mudança profunda na forma de compreender suas próprias experiências.
Belmira Melgueiro Baré, da comunidade Bom Jesus, no Alto Rio Negro, conta que passou a identificar situações que antes considerava naturais. “A gente não sabia o que era violência patrimonial, violência moral ou psicológica. Depois da formação percebemos que muitas coisas que vivíamos também eram violência.”
Hoje, ela compartilha esse conhecimento em reuniões comunitárias, escolas e encontros com jovens.
A transformação também foi pessoal para Ivania Melgueiro, do povo Baré, da comunidade Cartucho, em Santa Isabel do Rio Negro. “Essa formação mudou a minha vida”, afirma. Depois de conhecer seus direitos, ela passou a incentivar outras mulheres a buscar informação e romper o silêncio diante das agressões.

Formas de violência
As participantes relatam que um dos principais aprendizados foi compreender que a violência não se limita às agressões físicas. Ela também aparece nas relações familiares, nas instituições, nos espaços de trabalho e até nos serviços públicos.
Segundo a enfermeira indígena Eufélia Lima, do povo Tariana, um dos momentos mais marcantes das formações ocorre quando muitas mulheres reconhecem que elas próprias viveram situações de violência. Depois desse reconhecimento, surge um novo desafio: levar essa discussão para dentro das comunidades, onde as promotoras nem sempre são bem recebidas e, em alguns casos, enfrentam resistência ou ameaças por questionarem relações historicamente naturalizadas.
Para ela, fortalecer essa rede significa também fortalecer a autoestima das mulheres e compreender que a violência tem raízes profundas no processo de colonização, que alterou relações sociais, papéis de gênero e formas tradicionais de organização dos povos indígenas.
Esse entendimento faz do autocuidado um dos pilares do Mukaturu. A proposta não se limita ao enfrentamento da violência, mas inclui saúde física e mental, alimentação tradicional, fortalecimento cultural e valorização dos conhecimentos ancestrais como elementos fundamentais do Bem Viver.
Hoje, cada mulher formada torna-se um novo ponto dessa rede. Ao retornar às comunidades, leva informações sobre direitos, orienta outras mulheres, articula ações locais e amplia a circulação de conhecimentos que antes permaneciam restritos aos espaços institucionais.
Embora ainda jovem, a rede segue se expandindo pelo Rio Negro. A expectativa do DMIRN é realizar uma nova etapa da formação, ampliando o número de promotoras legais indígenas e fortalecendo uma estratégia construída pelas próprias mulheres para enfrentar a violência a partir do território.
Assim como os rios conectam centenas de comunidades na Amazônia, o Mukaturu vem conectando mulheres de diferentes povos em torno de um objetivo comum: transformar cuidado em proteção e fazer do conhecimento uma ferramenta coletiva de resistência.