Caso se tornou símbolo global de injustiça ambiental, revelando como a cadeia do aço prospera às custas do adoecimento de uma população amazônica.

A Federação Internacional de Direitos Humanos (FIDH), em parceria com o grupo brasileiro Justiça nos Trilhos (JnT), conduz uma campanha global que busca chamar a atenção para as violações socioambientais enfrentadas há mais de três décadas pela comunidade de Piquiá de Baixo, na Amazônia brasileira. Apesar de estar situada em um polo industrial estratégico para a cadeia do aço, a população local convive com severas consequências da atividade mineradora e siderúrgica, como poluição atmosférica, contaminação hídrica e adoecimento contínuo.

A iniciativa ganhou visibilidade especialmente no contexto dos 30 anos de operação do Grupo Ferroeste no município de Açailândia, marco que reacendeu debates sobre a responsabilidade de empresas e do Estado diante dos impactos acumulados ao longo do tempo. Para organizações de direitos humanos, o caso se tornou emblemático do que classificam como injustiça ambiental persistente, em que comunidades inteiras permanecem invisibilizadas enquanto setores industriais e autoridades tratam a situação como normalidade.

Entre os materiais produzidos pela campanha está o vídeo “Um convite para Piquiá de Baixo”, que utiliza ironia para confrontar diretamente empresas, representantes públicos e autoridades. A peça audiovisual convida simbolicamente esses atores a experimentarem o que a comunidade enfrenta diariamente: “água e peixe contaminados, frutas cobertas com pó de ferro”, à mesa de um banquete fictício onde moradores e responsáveis pelos danos dividem o mesmo espaço.

A intenção é clara: tensionar a percepção pública sobre a origem do aço consumido em todo o mundo, muitas vezes produzido às custas de graves violações ambientais e de direitos humanos. “Em escala global, consumimos sem perceber aço contaminado por violações atrozes cometidas por empresas irresponsáveis”, afirma Maria Isabel Cubides, pesquisadora do escritório de globalização de direitos humanos da FIDH. “Ao divulgar este convite, esperamos fortalecer o apoio à comunidade de Piquiá, exigindo que as empresas reconheçam seu papel e garantam reparação integral pelos danos causados.”

A FIDH acompanha a situação de Piquiá de Baixo há mais de uma década. Missões de campo foram realizadas, relatórios publicados, como os de 2011 e 2019, e recomendações enviadas a autoridades e às empresas responsáveis. O Relator Especial da ONU sobre Substâncias Perigosas e Resíduos Tóxicos também manifestou preocupação, solicitando recursos para o reassentamento da comunidade, medidas de reparação e um pedido formal de desculpas às famílias afetadas.

Apesar da notoriedade internacional do caso, pouco avançou no campo das responsabilidades. Nem empresas nem governos implementaram integralmente as recomendações, o que mantém o cotidiano da comunidade marcado por poluição, insegurança e abandono institucional.

A luta por reconhecimento e reparação

Diante de décadas de negligência, a comunidade de Piquiá de Baixo segue reivindicando reparação e condições dignas de vida. Para Justiça nos Trilhos e FIDH, dar visibilidade ao caso é uma forma de pressionar instituições e ampliar o engajamento social.

A campanha reforça que nenhum grupo humano deveria conviver com níveis tão altos de contaminação e risco. Ao mobilizar a opinião pública, as organizações esperam contribuir para que Piquiá de Baixo seja finalmente ouvida e para que os responsáveis sejam compelidos a reparar os danos acumulados ao longo dos anos.