No noroeste do Amazonas, os Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) das Terras Indígenas do Alto e Médio Rio Negro começam a sair do papel e ganhar resultados concretos nas comunidades indígenas. Elaborados ao longo da última década, os planos reúnem propostas e prioridades definidas pelos próprios povos indígenas para proteger seus territórios, fortalecer a cultura tradicional, melhorar a segurança alimentar e ampliar a autonomia das comunidades.

Os PGTAs funcionam como uma espécie de guia para orientar ações dentro das terras indígenas. Eles ajudam tanto as organizações indígenas quanto instituições públicas e parceiros externos a entender quais são as necessidades e prioridades de cada território.

Mas transformar esses planos em ações concretas sempre foi um grande desafio. Muitas comunidades tinham ideias e demandas importantes, mas faltavam recursos financeiros para colocar os projetos em prática. Foi para responder a essa necessidade que surgiu, em 2021, o Fundo Indígena do Rio Negro (FIRN), criado pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN).

Mecanismo de financiamento comunitário

O FIRN foi pensado como um mecanismo de financiamento comunitário. Na prática, o fundo apoia diretamente projetos elaborados pelas próprias associações indígenas, desde que estejam alinhados às prioridades definidas nos PGTAs. Os recursos financiam iniciativas ligadas à segurança alimentar, fortalecimento cultural, gestão ambiental, energias alternativas, formação de jovens lideranças e fortalecimento das organizações indígenas.

Desde sua criação, o fundo já apoiou pelo menos 40 projetos, beneficiando cerca de 300 comunidades indígenas das regiões do Alto e Médio Rio Negro. Pelo menos duas mil pessoas foram alcançadas diretamente pelas ações financiadas.

Entre os dados mais importantes está o protagonismo das mulheres indígenas: 47% dos projetos apoiados pelo FIRN são coordenados e executados por associações de mulheres indígenas. O número revela uma mudança importante na forma como as mulheres vêm ocupando espaços de liderança política, administrativa e territorial dentro do movimento indígena do Rio Negro.

Mulheres indígenas, papel fundamental

Historicamente, as mulheres indígenas sempre tiveram papel fundamental na organização das comunidades. São elas que preservam muitos conhecimentos tradicionais ligados às roças, à alimentação, ao artesanato e aos cuidados com a família e o território. No entanto, durante muito tempo, elas tiveram menos acesso aos espaços de decisão e aos recursos financeiros destinados às organizações.

Nos últimos anos, essa realidade começou a mudar. As mulheres passaram a criar suas próprias associações e coletivos, buscando maior autonomia para elaborar, administrar e executar seus próprios projetos.

Com apoio do FIRN, muitas dessas iniciativas ganharam força. Além de projetos produtivos, como produção agrícola e artesanato, as mulheres também passaram a investir em ações voltadas ao fortalecimento cultural e comunitário.

Em várias comunidades, os recursos do fundo ajudaram na construção ou recuperação de malocas — espaços coletivos tradicionais onde acontecem reuniões, cerimônias, festas, danças e transmissão de conhecimentos ancestrais. Esses espaços também são usados para oficinas, encontros de formação e debates sobre temas atuais, como comunicação digital, gestão de projetos e fortalecimento das associações.

Assim, os projetos apoiados pelo FIRN não geram apenas resultados econômicos. Eles fortalecem a cultura, a organização comunitária e a autonomia dos povos indígenas.

Para Cleocimara Gomes, do povo Piratapuya e coordenadora do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN/FOIRN), o fundo representa uma oportunidade inédita para as mulheres indígenas terem acesso direto aos recursos.

Segundo ela, muitos editais de financiamento externos possuem burocracias complexas, o que dificulta a participação das associações indígenas de base. O FIRN, por ser construído dentro da realidade do Rio Negro, consegue tornar esse acesso mais próximo e mais simples.

“O FIRN veio para ajudar as mulheres e suas associações a terem acesso aos projetos. Além do recurso financeiro, ele fortalece as organizações e ajuda as mulheres a aprenderem a elaborar e gerir projetos. Isso dá mais autonomia para que elas realizem seus objetivos dentro das comunidades”, explica.

Ela destaca ainda que o processo de participação nos projetos também funciona como formação política e administrativa. Ao aprenderem a escrever propostas, prestar contas e coordenar ações, as mulheres ganham experiência para acessar outros editais e novos financiamentos no futuro.

Essa autonomia tem impacto direto na implementação dos PGTAs. Isso porque as associações femininas conseguem executar ações previstas nos planos territoriais e ampliar a participação das mulheres nos espaços de decisão dentro das comunidades.

Outro aspecto importante dos projetos apoiados pelo FIRN é a formação de jovens lideranças indígenas femininas.

A jovem Ana Gabriela, do povo Baré e integrante da Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (AMIARN), afirma que participar de um projeto apoiado pelo fundo foi fundamental para sua formação como liderança.

“Aprendi sobre liderança, planejamento e execução de projetos. Também aprendi mais sobre a realidade das comunidades e sobre a importância da nossa cultura e identidade indígena”, afirma.

Segundo ela, os projetos ajudam as jovens indígenas a desenvolver conhecimentos em gestão, planejamento, organização comunitária e articulação com as comunidades.

Ela explica que os projetos fortalecem não apenas a parte técnica, mas também o sentimento de pertencimento e valorização da identidade indígena.

“O FIRN incentiva a valorização dos saberes tradicionais e fortalece a união entre as mulheres e as comunidades”, diz.

O protagonismo feminino também aparece na forma como as associações de mulheres vêm se organizando institucionalmente.

A vice-presidente da FOIRN, Janete Alves, do povo Dessano, destaca que muitas associações femininas apresentam forte capacidade de organização administrativa.

Ela observa que várias organizações conduzidas por homens enfrentam dificuldades de documentação e regularização institucional, enquanto muitas associações de mulheres conseguem manter sua estrutura organizada e ativa.

“Isso mostra que as mulheres também têm capacidade de administrar organizações e buscar iniciativas por meio de projetos”, afirma.

Apesar dos avanços, os desafios ainda são grandes. Muitas lideranças indígenas precisam lidar com questões burocráticas e administrativas que antes faziam pouca parte da realidade das comunidades. Mesmo assim, a experiência adquirida em cada projeto fortalece a capacidade das associações e amplia a confiança das mulheres para acessar novos financiamentos

Impactos dos projetos

Nas comunidades, os impactos dos projetos já podem ser vistos de forma concreta. Os recursos financiam encontros comunitários, oficinas, construção de espaços coletivos, fortalecimento das roças, realização de cerimônias tradicionais e transmissão de conhecimentos ancestrais para os jovens.

Outro diferencial do FIRN é o acompanhamento constante dos projetos. A equipe do fundo realiza formações, visitas e monitoramento contínuo nas comunidades para apoiar as associações na gestão financeira e administrativa das iniciativas.

Segundo a gerente administrativo-financeira do FIRN, Francineide Marinho Correia, esse acompanhamento ajuda a transformar a gestão dos projetos em um processo de aprendizagem contínua.

Ela relembra a inauguração da Casa do Saber na comunidade Açaí, construída por uma associação de mulheres indígenas, como um dos momentos mais marcantes desse processo.

“Foi mais do que a entrega de uma estrutura física. Foi a realização de um sonho coletivo de valorização da cultura e dos conhecimentos tradicionais”, afirma.

No Rio Negro, os PGTAs avançam a partir de um modelo de financiamento criado pelos próprios povos indígenas, baseado na autonomia, na participação comunitária e no fortalecimento das organizações locais.

Ao liderarem quase metade dos projetos apoiados pelo FIRN, as mulheres indígenas consolidam seu papel como protagonistas da gestão territorial e da defesa dos territórios indígenas.

Em um momento de crescente pressão sobre os territórios indígenas , fortalecer as mulheres indígenas do Rio Negro significa também fortalecer a proteção da Amazônia e dos modos de vida.

Mais do que administrar projetos, elas fortalecem a cultura, preservam conhecimentos tradicionais — e contribuem diretamente para a proteção da floresta amazônica.