Comunicadores e comunicadoras se encontraram em Açailândia (MA) para uma vivência criativa em comunicação popular, onde entrelaçaram sabedorias ancestrais e novas tecnologias.

Ali, onde o chão guarda histórias e o vento espalha sabedorias ancestrais, jovens comunicadores se encontraram para juntar palavras, imagens e resistências. Durante uma semana, em Açailândia (MA), a formação “Veias Abertas da América Latina: Resistência, Comunicação e Cultura” pulsou como um coração coletivo, carregando a memória dos povos originários e a força das comunidades tradicionais, caminhando juntas em direção a um futuro de luta e esperança.

Durante esses dias, o escritório da Justiça nos Trilhos (JnT), em Açailândia, se transformou em um espaço de troca, aprendizado e resistência. Os jovens ali reunidos transformaram memórias em movimento, indignação em criação. Usaram a arte, a comunicação e a cultura para fortalecer suas lutas e afirmar: as histórias precisam ser contadas – de dentro pra dentro.

Comunicação como território de luta

“No nosso território, a comunicação sempre existiu. Os mais velhos contam histórias nos rituais, no dia a dia da aldeia, e a gente aprende ouvindo. Agora, estamos transformando isso em fotos, vídeos, textos e áudios, sem perder a essência”, explica Genilson Guajajara, fotógrafo indígena que documenta a vida e a resistência do povo Guajajara.

Narrativas de resistência | Genilson Guajajara compartilha sua trajetória e visão durante a roda de conversa, trazendo a força da fotografia como instrumento de luta e memória.
Narrativas de resistência | Genilson Guajajara compartilha sua trajetória e visão durante a roda de conversa, trazendo a força da fotografia como instrumento de luta e memória.

Na programação, oficinas técnicas e criativas reafirmaram que comunicar é um ato político. Com práticas educomunicativas, os participantes exploraram narrativas visuais, produção de zines, criação de conteúdo digital e estratégias para amplificar as vozes de suas comunidades.

A mesa de abertura ficou por conta da comunicadora e professora Sarah Fontenelle Santos, que trouxe reflexões sobre “Comunicação insurgente para enfrentar o mal-agouro colonial”, conectando história, memória e resistência.

Durante sua fala, Sarah Fontenelle Santos ressaltou que a comunicação insurgente é uma ferramenta essencial para reivindicar narrativas e afirmar a existência de povos e culturas historicamente marginalizadas. Ela destacou a importância de resgatar e valorizar memórias silenciadas, transformando a comunicação em um ato de resistência e construção de futuros possíveis.

E trouxe como exemplo o trabalho desenvolvido pelo OcorreDiário, uma plataforma de comunicação popular e colaborativa. “Memória não é só lembrança, mas também estratégia insurgente”, afirmou, reforçando que contar a própria história é um direito é uma forma de enfrentamento às estruturas coloniais ainda vigentes.

A ideia de “ancestral futuro” atravessou toda a formação, conectando o saber dos mais velhos ao desejo de transformação das novas gerações. Além das técnicas de comunicação, o encontro abriu espaço para o compartilhamento de tradições e estratégias de resistência.

Para Paula Guajajara, integrante do grupo Guerreiras da Floresta, da T.I. Caru, a comunicação é uma ferramenta essencial na defesa do território:

“Se a gente não denunciar o que está acontecendo nas aldeias, ninguém vai saber. Mas não queremos só falar de destruição. Queremos mostrar a força da nossa cultura e da nossa gente.”

Paula Guajajara compartilha a colagem criada na oficina Cartografia do Bem-Viver e da Exploração, refletindo as vivências e desafios do território. Foto: Yanna Duarte
Paula Guajajara compartilha a colagem criada na oficina Cartografia do Bem-Viver e da Exploração, refletindo as vivências e desafios do território.
Foto: Yanna Duarte

Laboratórios Criativos

A comunicação popular sempre foi um instrumento de luta dos povos tradicionais. Raimundo Quilombola, idealizador da RádioTV Quilombo no Quilombo Rampa, reforça que essa prática existe muito antes dos meios digitais:

“A gente já se comunicava antes da internet, do rádio, do jornal. A palavra sempre foi nosso primeiro instrumento de luta. Os mais velhos contavam, a gente ouvia e repassava. Hoje, usamos as ferramentas que temos para continuar esse fio da memória. Unimos o que é nosso com a tecnologia que o capital inventou a partir do que já existia. O pau de selfie vendido no mercado é de ferro; o nosso é de madeira, colhido no território.”

Raimundo Quilombola inspira comunicadores a fortalecer a comunicação ancestral como ferramenta de resistência e memória em seus territórios.
Raimundo Quilombola inspira comunicadores a fortalecer a comunicação ancestral como ferramenta de resistência e memória em seus territórios.

Os laboratórios criativos foram espaços de experimentação em áudio, texto e imagem, misturando artes manuais, visuais e digitais para fortalecer narrativas insurgentes. Cada oficina e roda de conversa reafirmou que a comunicação ancestral não é coisa do passado nem uma moda passageira: é uma tecnologia viva, em constante transformação.

“Quando falamos sobre voz, não é sobre dar voz a uma comunidade, mas garantir que sua voz seja ouvida. É assumir nosso lugar de protagonistas, contar nossa própria história, expressar nossos sentimentos sem medo. E foi isso que trouxemos para a oficina: a certeza de que nossa realidade já é potente por si só e precisa ser mostrada do jeito que ela é.”

📌 Laboratório Criativo 1: Cartografia do Bem-Viver e da Exploração por meio dos zines

Facilitado por Lanna Luz, esse laboratório explorou a colagem e a produção de zines como forma de dar voz ao território. A oficina contou com Sebastião Costa e Angel Martins, do grupo de pesquisa LoveLabCom, da UFMA Campus Imperatriz, que traduziram com os demais jovens, em colagens, a dualidade entre o Bem-Viver e os impactos da exploração nos territórios.

Mãos em ação! A prática de colagem na oficina Cartografia do Bem-Viver e da Exploração por meio dos zines une a experiência da jornalista Lanna Luz, da Justiça nos Trilhos, e do grupo de pesquisa LoveLabCom.
Mãos em ação! A prática de colagem na oficina Cartografia do Bem-Viver e da Exploração por meio dos zines une a experiência da jornalista Lanna Luz, da Justiça nos Trilhos, e do grupo de pesquisa LoveLabCom.

Desse encontro nasceu o RaizZine: feito à mão e com o coração, onde colagens, desenhos e palavras expandem as vozes dos territórios, tradições e modos de vida. Misturando o artesanal e o digital, o RaizZine pulsa com a força e diversidade do Maranhão, reafirmando a cultura e a luta dos povos. O lançamento será no dia 20 de fevereiro.

📌 Laboratório Criativo 2: Fotografia e Território

Na roda de conversa “A fotografia como registro histórico da cultura Guajajara”, Genilson Guajajara compartilhou olhares profundos sobre ancestralidade e território:

“Para fotografar, é preciso pisar devagar nas folhas para não assustar o peixe.”

Olhar, experimentar, criar | O laboratório criativo de fotografia em ação, explorando novas perspectivas e formas de contar histórias através da imagem. Foto: Yanna Duarte
Olhar, experimentar, criar | O laboratório criativo de fotografia em ação, explorando novas perspectivas e formas de contar histórias através da imagem. Foto: Yanna Duarte

A prática fotográfica aconteceu em Piquiá de Baixo, comunidade que ressignifica sua história ao optar por um reassentamento longe dos impactos da siderurgia e mineração.

No dia 13 de fevereiro, será lançada a exposição on-line “Memória Visual: O que restou em Piquiá de Baixo? Queremos um Parque Ambiental aqui!”, pela Agência Zagaia e Justiça nos Trilhos.

📌 Laboratório Criativo 3: Escrita e Comunicação Digital

A jornalista Tainã Mansani conduziu a oficina “Do tema aos textos”, abordando técnicas de escrita para diversas plataformas. Os textos produzidos serão publicados e farão parte do RaizZine.

A jornalista Tainã Mansani apresenta estratégias para construir notícias, reportagens e narrativas alinhadas à realidade e às lutas dos territórios.
A jornalista Tainã Mansani apresenta estratégias para construir notícias, reportagens e narrativas alinhadas à realidade e às lutas dos territórios.

📌 Laboratório Criativo 4: Comunicação Ancestral e Produção Audiovisual

A experiência da Rádio e TV Quilombo Rampa, compartilhada por Raimundo Quilombola, trouxe à tona saberes ancestrais aplicados à comunicação popular.

O encerramento contou com a oficina “Como produzir vídeos com o celular”, documentando o ato público liderado por mulheres.

A força do aprendizado coletivo

A comunicação popular é uma ferramenta essencial na defesa dos territórios e na construção de narrativas próprias. No Maranhão, onde comunidades tradicionais enfrentam desafios históricos, fortalecer essas vozes é uma necessidade urgente.

Para Mikaell Carvalho, coordenador da Justiça nos Trilhos (JnT), esse compromisso se traduz no apoio a formações como a Veias Abertas da América Latina, que se consolida como um espaço de aprendizado, troca e resistência.

“A Justiça nos Trilhos sempre acreditou na comunicação popular como ferramenta fundamental de resistência e transformação. Essa formação não é apenas um espaço de aprendizado técnico, mas um território de troca, onde a memória, a luta e a criatividade dos povos se encontram para narrar suas próprias histórias, reafirmando seu direito à palavra e à autodeterminação”, afirma.

Yanna Duarte, jornalista e assessora de comunicação na Justiça nos Trilhos, resume bem a essência do que representou para ela esses dias de aprendizado coletivo com as comunidades e territórios:

“Acredito que aprender com os territórios foi o maior ganho, a maior riqueza que temos hoje, né? Porque são lugares de pessoas que têm muito a dizer e de quem temos muito a aprender.”

“O engajamento foi impressionante. Eles estiveram muito ativos e demonstraram grande criatividade nos métodos, como na produção do Zine. Ao mesmo tempo, se destacaram pela seriedade com que conduziram suas pesquisas jornalísticas, investigando temas extremamente relevantes para quilombolas, indígenas e jornalistas locais. A dedicação e o compromisso com as questões que os impactam foram evidentes em cada etapa do processo.”, afirma Ulrike. 

Essa ação formativa foi realizada entre 22 e 26 de janeiro de 2026 em parceria com a organização Justiça nos Trilhos (JnT), o Instituto para Democracia, Mídia e Intercâmbio Cultural da Alemanha (IDEM) e a Cooperação Alemã (BMZ), com apoio da Agência ZagaiaGrupo LoveLabComRádioTV Quilombo Rampa e Mídia Guajajara.

Texto: Agência Zagaia. A Zagaia é uma agência de comunicação popular feita por e para comunicadoras e comunicadores indígenas, quilombolas e de outros povos e comunidades tradicionais.